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O Fracasso da Razão
O Fracasso da Razão Tam Huyen Van (Claudio Miklos) - 20 Dezembro, 2009Revisado em 2011De um modo extremamente sutil, quase subliminar, o mundo – ou aquela parcela de mundo ligada ao implacável fluxo virtual de informações, gerados e reproduzidos através do desenfreado hipermodernismo do novo século – acaba (2009) de testemunhar um momento trágico, tão intenso e avassalador em significados fundamentais e insuspeitas aprendizagens quanto o atentado de 11 de setembro – ainda que sob suas distintas características estes dois acontecimentos possam parecer tão impossíveis em semelhanças. Contudo, não tenho dúvidas de que ambos representam um quadro triste da ignorância humana, e pertencem a um mesmo grande processo de degradação interpessoal coletiva que vem se forjando cada vez mais dentre as recentes lições históricas da humanidade.Nesta última sexta-feira 18 de dezembro, 2009, desfez-se em fracasso e impotência a Conferência da ONU sobre o Clima (COP15). A gigantesca extensão humana do fiasco - em tempo e espaço - se faz tão ampla que, ironicamente, torna-se diluída em sua própria dimensão e estilhaçada em suas muitas incongruências. Pois, para aqueles que já conhecem bem a incapacidade histórica dos homens
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O Dharma da Integração
O Dharma da Integração :: Reflexões sobre o conceito de afinidade segundo o budismo ::Considerando-se a importância extrema e fundamental da relação entre o indivíduo e o seu meio social, a reflexão sobre os aspectos essenciais desta associação torna-se um fator crucial para a interpretação e análise de toda forma de abordagem humanista. E não é diferente com o budismo. Sob todos os aspectos, os ensinos de Buddha são de fato ensinos de caráter humanista, e sem esta perspectiva boa parte da prática de aprendizagem contemplativa inerente ao processo budista será perdida em ações superficiais, mesmo quando realizadas com muito empenho.Este sempre foi um grave dilema na natureza humana: de muitas maneiras nós estamos constantemente nos empenhando em atingir metas, realizar nossos ideais ou seguir doutrinas que atendam nossas expectativas, mas a verdade é que poucas são as mentes que realizam tais objetivos com uma real e saudável consciência. De fato, o mais comum é que nossas ações sejam fundamentadas em grande disposição e vontade, mas sem aquele componente de auto-observação e sensibilidade perceptiva que poderia dar aos nossos atos
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Budismo e a Hipermodernidade
(Revisado em 2011) Muitos estudiosos atualmente entendem o Budismo como um dos movimentos espirituais ou religiosos que mais fundamentam suas argumentações sobre o estudo da mente humana – seus processos essenciais de percepção e consciência, e suas características estranhamente paradoxais e maravilhosas. De fato, pessoalmente não reconheço em nenhuma outra tradição – nem mesmo a ancestral tradição hinduísta, origem de uma parte significativa das proposições budistas – um grau tão profundo de sofisticação no proto-estudo da fenomenologia da mente, e da metodologia terapêutica psicológica implícita na experiência de contemplação meditativa.Uso o termo “proto-estudo” com o objetivo de caracterizar o budismo não como uma escola psicológica ou filosófica nos moldes daquilo que a modernidade acadêmica entende como tal, mas como um marco histórico importantíssimo – e pouco considerado – no esforço humano pela compreensão da complexa realidade existencial sob a ótica da mente. O budismo não trata de conceitos filosóficos ou psicológicos da mesma maneira que fizeram pensadores e eruditos na Grécia e Europa nos séculos clássicos ou iluministas, ou ainda fazem atualmente muitos estudiosos. Ou mais exatamente, o sistema de pensamento budista inaugura na
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Equilíbrio
Equilíbrio Tam Huyen Van – 19 de Abril, 2008 Revisado em 2011A perplexidade que sinto diante do reconhecimento de minhas próprias ignorâncias, embora fomente em mim uma dúvida natural acerca da possibilidade de superá-las completamente (e quem – exceto aqueles mais auto-indulgentes e embotados em si mesmos – seria capaz de evitar esta dúvida, quando se vê diante da assustadora face de sua própria ignorância?), é ao mesmo tempo o mais poderoso incentivo e o mais urgente alerta para que eu aprimore meu senso de limites – e principalmente minha humildade diante da vida. A perspectiva contemplativa se propõe justamente a isso, e nada (absolutamente nada) mais: amadurecer em todo praticante sua capacidade de reconhecer-se, descobrir em si vagas insanidades habitando fantasmagoricamente os resquícios de suas idéias de mundo, e a partir deste ponto o processo de consciência meditativa irá nos deixar abertos ao difícil e árduo caminho de amadurecimento perceptivo.Mas o fato é que mesmo a humildade, se exercida em excesso e em grau máximo de credulidade, torna-se a tosca representação de nossa falta de autoconfiança. Não é sábio buscar apoio em sensações ou
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Reflexões Sobre a Paz Interior
Reflexões Sobre a Paz InteriorTam Huyen Van – Dezembro, 2008Revisado em 2011Não creio que exista meta mais valiosa do que alcançar a paz. Não falo daquela paz convencional, feita de artifícios político-sociais e sonhos ideológicos de grupos ou culturas, mas da paz íntima, feita de momentos plenos e realmente conscientes, quando a mente é capaz de transformar e curar, de uma vez por todas, nossas almas inconstantes. É estranho que para falar claramente sobre a paz profunda seja necessário denunciar os artifícios da paz externa, desejada tão ardentemente por tantos idealistas e revolucionários, e até mesmo usada por ditadores e homens poderosos em todos os tempos como justificativa para suas escolhas trágicas. Mas isso é necessário. Pois o mais terrível dos erros humanos sempre se manifesta no fato de que, devido ignorância e falta de discernimento, permanecemos incapazes de reconhecer quando nossos valores mais fundamentais tornam-se distorcidos pelas expectativas parciais de nossas mentes mergulhadas em auto-engano.Assim, sem perceber, todos nós desejamos criar a paz em nossas vidas e comunidades. Mas para isso, imaginamos sempre e apenas meios externos através dos
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Tibet - Entre Liberdades e Revoluções
Tibet - Entre Liberdades e Revoluções Tam Huyen Van - 01 de Maio, 2008Revisado em 2011Não é nada fácil conhecer bem – e interpretar de forma atenta e cuidadosa – a complexa realidade histórica e cultural de um povo. Claro que isso é justificável, afinal nenhum aspecto da história humana é simples e fácil de ser conhecido – somos pouco experimentados em perceber a multifacetada sutileza dos atos, palavras e pensamentos de uma coletividade inteira. E isso se torna tão difícil porque simplesmente não existe uma realidade coletiva única, não existe uma entidade individual a qual possamos chamar de "povo" como chamaríamos alguém específico em uma multidão, ou algum ente querido com o qual convivemos todos os dias. Quando procuramos falar de uma cultura humana em especial, precisamos lidar com as realidades individuais das pessoas – simples pessoas – que compõem esta cultura, esta nação ou grupo de seres humanos. E quando tentamos entender as necessidades de um povo, precisamos saber entender as necessidades de qualquer ser humano, em qualquer tempo e em qualquer lugar, pois a humanidade não é feita de povos – ela é feita
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As Questões Irrespondíveis
As Questões IrrespondíveisNa tradição budista existe um momento surpreendente, essencial ao contexto de ensino do Dharma (1), quando Siddharta Gautama (o Buddha) é confrontado (2) com questionamentos que, para a grande maioria de pensadores, são considerados urgentes e impossíveis de desprezar. Estas questões são divididas em três categorias básicas, a saber: questões que dizem respeito à natureza absoluta ou final do mundo objetivo (a existência finita ou infinita do universo no tempo e/ou no espaço); questões que dizem respeito à natureza do Nirvana ou da Realidade Absoluta (supramundana) e sua relação com a condição búdica (a condição da natureza divina, para as escolas teístas); questões que dizem respeito à natureza do Eu e do corpo - corpo e alma, personalidade e forma - e sua união ou separação (existimos além do corpo? Será o Eu eterno? Corpo e alma estão sempre unidos ou sempre separados?). São questões que abrangem todo o espectro do dilema psico-espiritual humano, seja qual for a ótica: científica, filosófica ou religiosa. Basta alterar ligeiramente os termos, e todos estes dilemas irão sempre se adaptar a qualquer cultura
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A Armadilha
A ArmadilhaTam Huyen Van – Outubro, 2008 Revisado em 2011O monge perguntou ao Mestre, "Como posso sair do Samsara[1]?”O Mestre respondeu, "Quem te colocou nele?”Mergulhado no intenso fluxo da existência, sempre atento aos meus próprios desafios e dificuldades, aprendi a reconhecer o fato de que a fronteira entre conhecimento e a ignorância muitas vezes é tênue e quase indefinível. Nossa capacidade de compreensão e entendimento das coisas pode ser profundamente baseada em um imenso engano; uma intensa, paradoxal e complexa rede de conhecimentos e delusões pode nos deixar míopes para os aspectos mais saudáveis da existência, mas ainda assim o ser humano carrega em si o dom da inteligência e imaginação, e em meio ao caos entre conhecimentos e estupidez, homens e mulheres são capazes de encontrar justificativas brilhantes para as suas mais trágicas ilusões. A clareza de percepção, o senso correto de propósito e a maturidade de interpretação dos dharmas (os fenômenos da existência) nem sempre se manifestam de forma correta em nossas mentes, ou são compreendidos em sua real qualidade libertadora dos padrões insalubres que sustentam a grande –
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O Genocídio Social
O Genocídio Social (1)Tam Huyen Van, 12 de Fevereiro, 2007Revisado em 2011Talvez (apenas talvez) em meio ao turbilhão de emoções indignadas e clamores de justiça que o recente (2007) evento trágico ocorrido no Rio de Janeiro provocou em boa parte da opinião pública, não seja a melhor postura buscar uma visão mais coerente e humanamente saudável para refletir sobre a natureza da crueldade humana, suas raízes fundamentais e sua abrangência mundial.É notória a repulsa que boa parte do público possui pelas posições moderadas, principalmente quando uma comunidade contemporânea sofre com o impacto de uma atrocidade, mesmo que tal impacto nos atinja essencialmente na superfície de nossa experiência de entendimento social, dominando nossas mentes e corações sob as bases de uma revolta passional, imediata, sem com isso provocar em nós uma visão mais ampla, uma mudança real de consciência.A repulsa pela atitude e pelas palavras reflexivas se dá fundamentalmente porque, como é usual, entendemos a análise moderada como representativa de uma postura ingênua, algo covarde, condescendente e fraca diante dos fatos duros e desesperadores. Nada de "moderação", nada de "reflexão". Isso
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Zazen
Zazen Tam Huyen Van, Janeiro 2007 Revisado em 2011 Postura firme, quadris elevados e pernas corretamente cruzadas sobre o zafu (1), com os joelhos tocando o chão. Corpo centrado no eixo imaginário que vai do ponto mais alto da cabeça, passando por toda a extensão da espinha até o cóccix. A postura de contemplação representa muito mais do que um meio de prática física e mental; ela representa uma linguagem e um complexo de ensinamentos, todos resumidos em uma simples posição de ossos e músculos sobre uma almofada redonda. Implícitos nesta postura imóvel, reverberando no silêncio da contemplação, estão presentes tanto uma responsabilidade como uma profunda decisão.A quem é dado o direito de realmente decidir como ser e o quê fazer na vida? De fato, todos nós imaginamos que temos este direito, e muito mais do que isso: devemos lutar até o fim quando esta liberdade decisória nos é retirada, qualquer que seja o motivo. Portanto, o questionamento acima pode parecer ridículo e sem sentido. Na verdade, não são poucos os homens e mulheres que pretendem decidir seus caminhos e dias
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A Inteligência Integral e o Exercício da Compaixão
A Inteligência Integral e o Exercício da CompaixãoTam Huyen Van – 06 de Março, 2007/a.B. 2551Revisado em 2011À parte a óbvia admiração pelas grandes mentes da humanidade, freqüentemente muitas pessoas costumam dar ao conceito de inteligência uma interpretação nem sempre lisonjeira. Arrogância, insensibilidade, racionalismo exacerbado, estranheza, estes são alguns adjetivos pouco elogiosos que podem ser associados ao exercício de conhecimento e aprendizagem intensos, frequentemente ligados à inteligência. A pessoa inteligente pode ser considerada excêntrica, algo deslocada do meio usual – é admirada ao mesmo tempo em que é rejeitada. Pode se transformar em alguém preso a complexas formas de expressão, a estudos complicados e excessivamente especializados, longe da realidade comum e cotidiana; seriam homens e mulheres estranhos mas dedicados, que passam suas vidas tentando compreender a migração dos ursos pardos da Sibéria, ou as interações biomoleculares dos sistemas genéticos humanos, ou ainda os efeitos das energias gravitacionais nos campos estelares binários. Para a maioria das pessoas, o uso da inteligência pode representar uma espécie de barreira à normalidade
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A Vida Simples
A Vida SimplesTam Huyen Van – 14 de Março, 2007Revisado em 2011Nos últimos tempos tenho pensado muito em como seria maravilhoso adquirir o mérito de viver simplesmente, em algum lugar aberto, pleno em verde e azul, abrigado das loucuras do mundo. Notem bem, não quero dar a entender que desejo viver isolado do mundo, mas sim um dia viver livre destes vícios cotidianos que minam tanto nossa saúde física e mental. Este anseio não é novo para mim, já faz parte de minha vida há muito tempo. Mas ultimamente ele tem retornado com pinceladas mais fortes de sonhos e emoções. Talvez, justamente devido à complexidade do mundo moderno, suas exigências tão grandes, o ideal de vida simples esteja me assaltando mais fortemente como que para compensar a frustração das rotinas mecânicas, a fragilidade das idéias superficiais, o medo dos fracassos profissionais e afetivos que eu, assim como tantos de nós, vivencio todos os dias.Imagino o bem que seria poder conversar com as pessoas sem pressa, sabendo harmonizar em minha voz as palavras e os silêncios tão necessários para dar aos nossos
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O Intelectualismo Fundamentalista
O Intelectualismo Fundamentalista e a crise conceitual contemporânea Tam Huyen Van, 14 Outubro, 2007 – Ano Buddhista de 2551 Revisado em 2011 Quase não existe mais necessidade de chamar a atenção de todos para a surpreendente e assustadora fase histórica em que vivemos, fruto de uma transformação revolucionária do modo de interpretação dos conhecimentos, das idéias e dos conceitos humanos. Esta Revolução contemporânea é a Revolução da Palavra, uma revolução da informação. Nunca antes o Verbo foi tão manipulado, reeditado, reformulado e divulgado em centenas de versões diferentes e conflitantes. Corre nas veias da humanidade atual o sedutor e muitas vezes arriscado néctar da palavra aberta, dos conceitos misturados, das interpretações multifacetadas – todas maquiadas com um verniz de liberdade informativa, mas que na verdade escondem uma das mais perigosas ameaças ao conhecimento concordante e inclusivo, à claridade argumentativa e à liberdade de compreensão mútua: a ameaça do Intelectualismo Fundamentalista.Vivemos uma nova fase do antigo mito de Babel; agora a questão não é mais o caos e impossibilidade de compreensão mútua
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Recomeços
Recomeços:: novas considerações sobre a prática do Começar Novamente ::Tam Huyen Van – Outubro, 2007 – Ano Budista 2551A vida implica em riscos. Ou sendo mais exato, o viver implica em riscos. Há uma sutil distinção entre a Vida, o complexo fenômeno de existências várias, todas interagindo e sobrevivendo em diversos ambientes e condições, e o ato de viver, o esforço por manter-se integrado junto a outras existências todos os dias, a cada minuto, navegando os mares revoltos do momento presente. Pois, não se iluda, o futuro é apenas uma sombra projetada do Agora, e o passado é como uma folha seca ao chão: desfaz-se em forma de cinzas, deixando apenas a memória de sua forma. Existe apenas o presente, e mesmo isso não pode ser comparado a nada que possamos idealizar como sendo a maravilha de viver – e de morrer constantemente.Dizer isso, eu sei, causa estranheza, desdém ou discordância em muitas mentes e corações pois para o prejuízo da sabedoria e das verdades essenciais os conceitos pluralistas, renovadores e inclusivos (os conceitos voltados para o exercício da compreensão direta da vida
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Sobre a Morte e o Morrer
Sobre a Morte e o Morrer Tam Huyen Van - 07 de Abril, 2006 Revisado em 2011 Definitivamente, é muito difícil saber de antemão quais seriam exatamente, em meio às várias tentativas de ações saudáveis que procuramos realizar em nossa vida, os méritos acumulados que poderiam nos assegurar não apenas a longevidade física, mas também a excelência de alma. Claro que muitas abordagens religiosas ou filosóficas nos apresentam uma grande gama de virtudes morais e sociais que, se forem exercidas diligentemente, pretensamente nos irão garantir as benesses de uma vida longa e profícua. Contudo – e mais uma vez – a história humana demonstra que a obediência cega e meramente doutrinária às virtudes, por mais nobres que elas sejam (e elas o são, com certeza), ou a direta ação humana sobre os mais dignos ideais, não nos irá conferir automática e mecanicamente ganhos espirituais. A verdade delicada por trás de toda ordem moral é que, infelizmente (ou felizmente, em minha opinião), não é possível barganhar com a
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O Hóspede da Caverna
O Hóspede da CavernaO Hóspede da CavernaTam Huyen Van – Março, 2006 – Ano budista de 2549No ano do Tigre de Água, na China central, existia certo monge, adentrado em anos e adequado em sabedoria, chamado Wu Xin. Embora tenha passado a maior parte de sua vida como andarilho entre os vários mosteiros e lugarejos na imensidão daquelas terras, agora habitava uma caverna, espaçosa e arejada (mas não excessivamente exposta), aninhada no sopé da Montanha dos Ventos Afortunados. Era uma habitação improvisada, realmente, mas não menos útil para viver como qualquer lar, seja suntuoso ou humilde. Um pouco de trabalho duro, uma boa dose de criatividade e otimismo, um grande senso de harmonia com o seu meio, e ali estava: uma habitação aconchegante e muito bem feita.Na umbrosa caverna vivia o monge recolhido, mas não isolado; próximo ao seu rochoso lar, logo abaixo de íngreme ravina, vicejava certa aldeia relativamente populosa e ordeira. Lá nasciam, vivam e morriam homens e mulheres de vários tipos e posturas, e poder-se-ia dizer que naquela minúscula aldeia um cuidadoso e insistente observador acabaria por invariavelmente descobrir,
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Desaprender
Desaprender - como prática para o conhecimento correto - Tam Huyen Van – Setembro, 2006 Revisado em 2010 Nan-In, um mestre japonês durante a era Meiji (1868-1912), certa vez recebeu um professor de universidade, um grande intelectual, que veio lhe inquirir sobre Zen. Este iniciou um longo discurso analítico sobre suas dúvidas. Nan-In, enquanto o ouvia, serviu o chá. Ele encheu completamente a xícara de seu visitante, e continuou a enchê-la, derramando chá pela borda. O professor, vendo o excesso se derramando, não pode mais se conter e disse: "Está muito cheio. Não cabe mais chá!" "Como esta xícara," Nan-in disse, "você está cheio de suas próprias opiniões e especulações. Como posso eu lhe demonstrar o Zen sem você primeiro esvaziar sua xícara?" Não é fácil adquirir conhecimentos. Apesar do fato de estarmos vivendo em um período no qual ocorre uma explosão de informações jamais vista na história da humanidade, ainda assim continuamos a observar que o conhecimento é um processo
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Hiroshima
HiroshimaTam Huyen Van - 2549 a.B. (Agosto de 2005)Revisado em 2010"Pensem nas crianças mudas, telepáticas"Sou um grande admirador da História. História antiga, moderna, não importa; sempre estou interessado em saber mais dos atos humanos. Ainda pertenço à classe de estudiosos que confiam no exercício da memória contemplativa, prática que sustenta a possibilidade de manter vívidas em nossas consciências as importantes lições antigas e ao mesmo tempo evitar a atração fatal das sereias do passado, desejosas de nos manter presos ao Antes. Infelizmente, a história humana é feita tanto pelas ações inspiradoras de sábios quanto pelas aterrorizantes crueldades dos ignorantes, e assim temos de aprender com ambas. Ainda que muitas vezes a interpretação equivocada da natureza da história leve pessoas a achar que o movimento histórico é dissociado da realidade, na verdade a história acontece a todo o tempo. Ela não é um termo acadêmico, não pertence aos museus ou às enciclopédias. A história é feita no momento presente e, portanto, não pode ser captada pelos sentidos comuns e banais, embotados de tantos anseios e projeções. Raramente temos consciência da
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A Chuva Está em Toda Parte
Ano Budista de 2549 Revisado em 2010 O mestre e seu discípulo aproximavam-se de seu monastério, após longa caminhada. A algumas centenas de metros da entrada, uma chuva torrencial se inicia. O discípulo parte em disparada buscando o abrigo do portal de entrada. Quando chega lá, encharcado, volta-se e percebe que seu mestre ainda caminha normalmente sob o manto intenso da chuva. Solícito com a saúde e conforto do mestre, o monge grita ansioso:"Corra, Mestre! Venha para o abrigo!" O mestre comenta, simplesmente: "Por que se apressar? A chuva já está em toda parte..." Conto Zen O contexto principal da vida, em minha opinião, está em nos oferecer uma gama de possibilidades através das quais poderemos amadurecer ações em prol da obtenção de sabedoria e bem estar - ou então distorcê-las de forma a aprofundar nosso sofrimento e ignorância, jamais logrando reconhecer o mundo com olhos plenamente abertos e a mente desperta. Estas ações se traduzem não apenas nos atos feitos
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O Exercício Meditativo Budista e seus Reflexos Mentais
Ano Budista de 2548-49 (Revisado em 2010) Há algum tempo atrás li algumas reportagens sobre testes realizados por pesquisadores em monges budistas, procurando determinar a extensão dos efeitos neurológicos em praticantes profundos de meditação. Uma destas pesquisas indicava que a análise dos padrões mentais de um grupo de monges tibetanos em contraposição aos padrões de um grupo de pessoas comuns demonstrava que o estado mental dos monásticos era muito mais fluido e relaxado, além de acessar com mais freqüência níveis mentais menos tensos e angustiantes. As pesquisas sobre a prática meditativa são muito pertinentes e interessantes. Existem abordagens válidas que quase sempre demonstram de modo uniforme que o exercício técnico meditativo (ou seja, a forma mais conhecida de meditar, sentado em silêncio, vocalizando mantras ou em estado de visualização), quando feito com constância, leva a alterações mentais detectáveis e a muitas melhorias fisiológicas.Contudo, sinto falta de estudos mais amplos sobre a meditação como filosofia prática, ou podemos dizer atitude prática.
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A Face Original
Tam Huyen Van – 2549 e.B. (Junho de 2005)Revisado em 2011Na tradição Zen existe um interessante koan, freqüentemente apresentado aos discípulos para fomentar seus esforços de reflexão, ajudando-os a reconstruírem a si mesmos: Qual a sua face original, aquela antes de seus pais nascerem?Dentre toda a riqueza de conhecimento e sabedoria que o Zen nos apresenta, alguns conceitos me maravilham por sua força reflexiva, sua dinâmica filosófica, sua eterna contemporaneidade. Este koan pertence ao grupo de conceitos zen aos quais me esforço por resolver corretamente ao longo de minha prática do Dharma. O conceito tanto me encanta como me assusta: qual seria a minha face original, realmente? Todas as vezes que nos defrontamos com uma idéia ou argumento, quase sempre o primeiro impulso da mente é tentar interpretá-lo literalmente. Esse vício da razão é o que mais atrapalha a compreensão do Zen e de suas premissas argumentativas; esse mesmo vício é o que assassina o Zen, tornando-o um reles adjetivo ou um termo associado a um teatro de atitudes absurdas.Quando nos vemos diante de tal questionamento, sempre o primeiro
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Sobre Rebeliões e Revoluções
Sobre Rebeliões e RevoluçõesTam Huyen Van, 2005 - Ano Budista de 2549Revisado em 2011 Após tantas aprendizagens difíceis, adquiridas em minha experiência como praticante budista, considero que a ação libertária mais útil e corretamente sábia ocorre apenas através de uma revolução interna, e jamais a partir de rebeliões externas. Para mim é absolutamente certo que somente quando formos capazes de superar as angústias e limitações de nosso Ego é em que conseguiremos abandonarmos as tolas rebeliões argumentativas, doutrinárias ou intelectuais que forjam as ações políticas e idealistas do mundo atual, e saberemos viver o desafio da transformação interior real, consciente, amadurecida. Quando falo de rebeliões externas e revoluções internas, pretendo somente indicar os aspectos mais cruciais das experiências pessoais em relação a qualquer prática de cunho espiritual, ou sensível às sutilezas da alma. Não estou enfocando aqui outros tipos de rebeliões e revoluções, embora todas – para pior ou para melhor – sejam fruto de alguma luta interior, seja no plano do coração ou no plano da mente, e portanto de certa maneira ainda sejam rebeliões de
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A Ciência da Felicidade
Ano Budista de 2549 Revisado em 2010 Será possível que seja criada um dia uma metodologia através da qual chegaríamos à descoberta da melhor fórmula para atingir a felicidade? De muitas maneiras nós criamos metas de vida que, essencialmente, pretendem nos levar à felicidade através de métodos bem definidos. Na modernidade atual, vemos uma profusão de argumentos e livros onde seus autores nos vendem vários meios de atingir uma idéia de “felicidade”, quase sempre disfarçada em termos mais sedutores como sucesso, auto-estima, auto-confiança e outros. Portanto, sob o prisma das projeções comuns sobre realizações e objetivos, nosso comportamento diante do mundo se baseia em uma busca por um ideal de felicidade – mas não a felicidade em si. Freqüentemente confundimos prazer e excitação com felicidade, o que transforma muitas vezes nosso esforço para viver bem em fonte de frustrações e raivas mescladas com êxtases e alegrias. O fato é que nós temos pouca idéia do que seria a felicidade. Eu vou mais além e
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A Ecologia da Mente
A angústia de conviver com os erros e a luta para não sucumbir à culpa por tê-los cometido: esta é a mais difícil de todas as tarefas para todo aquele que, a despeito de tudo o que se apresenta, insiste em concordar com a possibilidade da transformação. A luta talvez não seja a de evitar o afogamento nas mágoas mas de confiar em um recomeço real, claro e definitivo. Um recomeço possível a todo o momento. Sempre existe uma saída.Pode o ser humano atingir a perfeição através das transformações? Pode superar seus medos, sair da infância, abandonar as ausências e a solidão da alma? Pode ser coerente consigo mesmo, com sua consciência?Pode o Homem iluminar-se?Quantas dúvidas assaltam a alma de todo buscador. E, no entanto, a alma prospera; não sucumbe ao abismo da ignorância, ainda que lute arduamente para não fazê-lo. Criar novas possibilidades todos os dias, todos os dias enfrentar os hábitos inadequados, e lograr algumas vitórias. Assim é que deve ser, lutar sempre, confiando na mudança. Quem pode agir de acordo com a vida sem
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A Hora do Lobo
a.B. 2549Revisado em 2011Existe um predador no interior de todos nós. Ele não existe para predar outras pessoas, mas para caçar a nós mesmos, devorando nosso discernimento, afastando a sabedoria. Foi criado a partir de nossos hábitos e padrões de comportamento insalubres, de nossas vaidades e egoísmos, e se alimenta de nossa energia mental, emocional e espiritual. Como todo predador, ele não age aleatoriamente e sem estratégia; fica à espreita e somente nos domina quando estimulado pelas circunstâncias, emoções e pensamentos que excitem sua ira. E nesta hora, como afirma Thich Nhat Hanh, o grande mestre budista da tradição Tiep Hien do zen vietnamita, fazemos coisas que não queremos fazer, dizemos coisas que não queremos dizer, pensamos coisas que não gostamos de pensar. Magoamos a nós mesmos e a outros, incapazes de agir com consciência plena. Esta é a Hora do Lobo, o momento em que caímos na mais lamentável cadeia de ações inconscientes e ignorantes, fundamentadas nos vícios de atitude que desenvolvemos ao longo de nossa vida. E essa triste queda devora nosso discernimento e percepção, e nos
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Sobre a Natureza da Impermanência
a.B. 2548 (Revisado em 2010) Sempre que nós paramos para pensar, sentimos que o mais certo para colocar as nossas vidas em ordem é saber as maneiras exatas de se agir de acordo com as situações sem que sejamos presos nas armadilhas das surpresas. Nós procuramos nos assegurar de que nossas vidas serão sempre as mesmas e que nada, absolutamente nada, vai alterar o curso linear de nossas experiências. O mundo sempre parece o mesmo. Nada parece mudar. A todo momento estamos agindo e pensando como se os limites do tempo fossem apenas idéias ou fatos para serem usados, não percebidos, ou sentidos. O que então será isto que provoca nossos corações, e nos faz pasmar diante das circunstâncias que surgem não se sabe de onde? Por que – se estamos certos de que o mundo é composto apenas por nossa própria concepção de realidade – freqüentemente somos arrastados por acontecimentos incongruentes e estranhos aos nossos anseios, e que nos fazem sofrer tantos temores, remorsos, culpas? Temos
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A Paz Essencial
(Discurso apresentado nas comemorações do Vesak no ano de 2003) Embora seja fundamental, a paz precisa de elementos para existir e se manter. Não falo da paz externa, a paz do descanso e da tranqüilidade diária; falo da paz essencial, sem a qual nossas vidas jamais serão plenas, e sem a qual a paz externa, como dolorosamente percebemos todos os dias, será sempre um sonho aparentemente inalcançável.No âmago dos ensinamentos de Buda, no coração fundamental de tudo o que ele procurou demonstrar, encontramos os dois elementos sobre os quais a Felicidade se sustenta: a Liberdade e a Paz Interior. Buda fala do despertar, nos aponta para o caminho que nos conduzirá para a redescoberta de nós mesmos; ao longo deste caminho, não sem esforço e profunda concentração, estaremos nos despojando de medos e ódios, apegos e insatisfações, estaremos enfim nos libertando de nós mesmos. Esta espécie de morte e renascimento às vezes nos parece assustadora, ou então tolamente romântica, mas não é. Esta transformação
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Atitude Meditativa no Cotidiano
(Revisado em 2010)Para muitas pessoas, o aspecto mais importante da meditação diz respeito a aprendizagem da técnica de sentar-se em silêncio (dhyana, zazen). Na verdade, quando falamos em "meditação" em geral nós pensamos apenas no ato de sentar-se, seja em silêncio - fundamental na meditação profunda -, seja em estado de concentração baseado na vocalização de mantras, visualizações ou ainda algum tipo de estado mental alterado. Esses atos são, para a maioria dos interessados na prática de meditação, tudo o que se deve fazer para atingir o estado meditativo, e muitas vezes pensamos ou ouvimos falar que, se nós nos empenharmos em meditar intensamente e pelo máximo de tempo possível com muita freqüência, em tempo atingiremos a "iluminação". É notória a pretensão do Eu em associar seus objetivos com o "máximo", com o além do meio. Mas a atitude altamente ilusória de considerarmos o sucesso como fruto de ações extremas, ambiciosas, é inútil no plano espiritual, e sempre inconseqüente no plano mundano. Prender-se à ilusão de vitórias baseadas na passional desrespeito aos limites do corpo, da mente e do
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Textos
e Reflexões sobre o Dharma
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